Política é assunto da alma

Ao meu único, eterno amor. Ao meu verdadeiro assunto de alma.

 Por Rose de Melo Rocha

Eu estive ali. Você não viu. Eu tive todo o tempo do mundo. Este tempo tão infindável que a paixão confere aos compulsoriamente solitários. O tempo dos angustiados, dos esperançosos. Dos aflitos. Dos idiotas. Dos perdidos. Dos enamorados. Dos desiludidos. Dos loucamente encantados. Dos vadios. Dos que ainda esperam. Dos que desesperam. Dos que não suportam. Dos que quase gritam pelo amor que se perde. Dos malditos. Dos bêbados. Dos sóbrios. Dos ingênuos. Dos maliciosos.

Você não sabe. Eu olhei com calma demais aquelas pessoas que ficam chorando pelos cantos. Uma perdeu os dentes, e não pôde repor. Outra perdeu o emprego, e não suportou. Outras mais perderam pai, mãe, casa, família, juízo. Outras perderam apenas o eu. Outras aguardaram um casamento, um filho, um amor. Sempre procuraram e nunca, isto nunca chegou. Eu quis colar meu rosto no corpo de quem amei. Eu quis tanta coisa que não tive. Eu tive tanto do que não desejei. E todos, todos nós seguimos.

A política nacional me atordoa. Impressiona-me como eu, um dia tão militante, escuto como se não me dissessem respeito às declarações deste homem que se tornou presidente de meu país. E sigo sonhando com um país de homens e mulheres de mais verdade, e mais intensidade. Tenho carência de humanidade, esta humanista errante que sou, que sempre insistirei em ser.

As pessoas continuam em suas vidas, achando que é mais importante ir ao trabalho do que dizer um bom dia, achando que um bom dia nada traz. Eu fiquei aqui procurando palavras pra dizer, piegas, que amar importa, que o medo oprime. E, sim, fui piegas assumida. E, de alguma forma, desta forma, desafiei meu medo.

Os amores se perdem. Os amores e as convicções se perdem em meio dos cargos e dos enfados. Se perdem em meio de certezas e de objetivos. Se perdem por interesse demais e também por desinteresse.

O mundo devia ser feito de súplicas. Devia ser feito daquelas coisas que falamos pras nossas mães quando acordamos e, de repente, sentimos falta daquele dia remoto em que elas nos acordaram pra ver se estávamos com febre, ou com fome, ou com medo, ou com frio. O frio da alma é um frio essencialmente político. Queria que meu presidente soubesse disto. E me escutasse. Queria que sua mãe falasse com ele.

Rose de Melo Rocha é jornalista e pesquisadora, fez seus estudos de pós-doutorado em Ciências Sociais na PUC/SP. Doutora em Ciências da Comunicação pela ECA/USP, é professora da PUC/SP e das Faculdades de Comunicações e Artes do SENAC. Sua tese “Estética da Violência: por uma arqueologia dos vestígios” recebeu da Intercom o prêmio de melhor tese de doutorado defendida em 1998. Tem livros publicados na área de comunicação e diversos artigos em revistas acadêmicas. É membro do centro de pesquisa Filocom (ECA/USP) e do Complexus (PUC/SP).

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