O coliseu e a lição que não aprendemos

coliseu

Entre os vários livros que vou lendo aos poucos um está ocupando mais minha mente: Os Mártires do Coliseu, de A. J. O’Reilly. Começou como fascínio e curiosidade por este monumento imponente e toda a história que o cerca, mas acabou me absorvendo a mente um paradoxo que reflete na atualidade.
Desenvolverei o tema com calma. Vamos primeiro remontar à antiguidade, com a construção do Coliseu. A situação era a seguinte: Em 64 d.C. Nero já tinha incendiado Roma e colocado a culpa nos cristãos, que já não eram lá bem vistos pela sociedade. Nero foi obrigado a se suicidar pelo Senado em 68 e em 72 iniciou-se a construção do Coliseu, com a mão-de-obra de 60 mil escravos judeus que foram trazidos de Israel após os romanos destruírem Jerusalém e o segundo Templo (o que Jesus falou que não ficaria pedra sobre pedra). A construção levou 9 anos. A festa de inauguração durou 100 dias, com direito a guerra de navios (o Coliseu podia ser enchido de água) e mortes ao montes, de todas as maneiras possíveis e imagináveis.
É justamente nesse aspecto que quero focar meu post: a mentalidade da época. Para os romanos era natural, diria até “saudável”, esses hábitos de se divertir com a morte alheia. Desde os tempos dos Etruscos que existia o ritual RELIGIOSO de, para comemorar a morte de um cidadão importante, se matar pessoas (escravos, mulheres) para ajudá-lo no além (isso também aparece entre a nobreza chinesa e egípcia). Quanto mais importante, mais gente morta com mais pompa e mais público. O costume “evoluiu” para simples entretenimento. O conceito de que “o mais forte sobrevive matando o mais fraco” sempre permeou a sociedade humana na antiguidade, quando batalhávamos pra sobreviver com poucos recursos. Para isso usávamos os instintos mais básicos de sobrevivência o tempo todo. Os romanos, inteligentíssimos e sofisticados, elevaram a violência e a bestialidade a um status de entretenimento para toda (repito, TODA) a família, de todas as classes sociais. O Coliseu era a maior e mais pungente prova disso. Cada cidadão recebia uma senha (um número) pra ter sua cadeira reservada no Coliseu. A nobreza ficava mais próxima do nível da arena, classe média no meio e os escravos e estrangeiros dividiam o nível mais acima. As mulheres e os pobres ficavam nas últimas fileiras da arquibancada, lá em cima. Cabiam ao todo 80 mil pessoas no Coliseu (a nível de comparação, no maior estádio do Brasil – o Maracanã – cabe atualmente 79 mil pessoas). Os jogos de Gladiadores já eram sucesso 300 anos antes do Coliseu ser construído, então era algo plenamente aceito e entranhado na sociedade (uma verdadeira “tradição”). A entrada era gratuita, e o povo ainda recebia comida, subsidiada pelo governo (o “bolsa-coliseu”), o que entrou para a história como “política do pão e circo”, extremamente eficiente e que permeia com tristeza a história do Brasil até hoje.
Havia uma programação diária para o Coliseu, que começava pela manhã (as “Venationes”) com a exibição de animais selvagens, capturados nas terras distantes do vasto Império Romano. Era a única oportunidade pra um cidadão que viveu e cresceu em Roma ver um Guepardo, um Elefante, um Rinoceronte. O habitat do animal era recriado com a colocação de árvores e arbustos na própria arena. Depois soltavam algumas pessoas lá dentro pra serem mortas por animais enfurecidos ou famintos. Ou botavam dois animais selvagens pra lutar até a morte. Depois vinham os guerreiros (algumas vezes até mulheres!) de armadura, redes e lanças iam caçar e matar os animais. A carne dos animais mortos era fatiada na cozinha embaixo da arena, embalada e distribuída pra platéia. Ao meio-dia tinha a execução de prisioneiros, feita para o populacho, sem muito requinte (era de bom tom que os nobres fossem embora almoçar, embora alguns mais sádicos ficassem) e à tarde vinha o melhor do dia: a luta de gladiadores!!! Os gladiadores eram os lutadores de UFC da antiguidade: ídolos incontestes. Crianças faziam bonecos e desenhos nas paredes das vitórias, pessoas se tornavam tão famosas e queridas a ponto de dar inveja ao Imperador (tanto que o Imperador Comodus – o mesmo retratado no filme “Gladiador” resolveu “lutar” de fachada nas Arenas pra conseguir o título de “Mille Gladiatorum Victor“: O Vencedor de Mil Gladiadores).
O capítulo mais conhecido do Coliseu é a perseguição aos cristãos. Milhares morreram ali, de todas as idades e classes sociais, apenas por professarem a fé cristã. A perseguição começou entre os judeus (quando era território de Roma), que viam nessa doutrina o esvaziamento do poder do sinédrio. Para os romanos a doutrina cristã poderia ter sido incorporada à multitude de deuses que, inteligentemente, os romanos toleravam pra manter sua política territorial sem muitas revoltas, não fosse por um detalhe: Os cristãos não só não faziam sacrifícios a seu Deus como não tolevaram que outros fizessem qualquer tipo de sacrifício a qualquer Deus. Isso se tornou, para Roma, uma “superstição perigosa”, algo que era uma má influência pra sociedade (lembrem: o contexto social e religioso era um por centenas de anos, e toda a “tradição” era ameaçada por um secto, um grupo dissidente dos judeus que desprezava tudo o que eles acreditavam). A coisa ganhou contornos dramáticos com Nero e o incêndio de Roma. Pra escapar de qualquer acusação, Nero tratou de culpar os cristãos, e como eles já não eram populares…
O Coliseu se tornou o palco para o martírio dos cristãos por uma centena de anos e, ironicamente, fortaleceu o que os romanos pretendiam destruir. Isso porque o cristianismo, ao contrário das outras religiões, alimenta-se do sacrifício, do “Imitatio Christi”, do mais fraco (manso) na Terra ser o mais “forte” no céu. Quanto mais aumentava a perseguição e morte (com decretos espalhados em todo o território romano) mais aumentava a popularidade dos cristãos. E a sede dos romanos curtir um “espetáculo” com as mortes contribuiu enormemente pra isso: ao contrários dos outros condenados, os cristãos abraçavam a morte com júbilo e resignação. Isso era algo que não se via todo dia, e os comentários a respeito passaram de boca em boca junto às notícias sobre os gladiadores e animais exóticos. A coragem demonstrada diante da morte passou de fraqueza para fortaleza, e o interesse pela doutrina que conferia a essas pessoas tanta certeza de uma recompensa no além aumentou graças a essa poderosa “antena emissora” que era o Coliseu. A própria Igreja Católica reconheceu isso e preservou o Coliseu (que ia ser destruído completamente no Renascentismo pra tirarem matéria-prima pra estátuas, pontes, casas, etc) como um monumento cristão. Fica entendido aí o porque de o país que tanto perseguiu os cristãos ter sido o primeiro país a ser oficialmente “convertido”.

Esse é o ponto onde quero chegar: A perseguição levou a uma união, popularidade e fortalecimento de algo que, se deixado quieto, talvez não adquirisse tamanha dimensão. E o que acontece séculos depois, quando os cristãos, outrora perseguidos, adquiriram o poder do continente europeu? Perseguição e morte. Será que não aprendemos nada com a história?
Se formos ficar só na atualidade veremos o triste episódio de Silas Malafaia (que, apesar de representar apenas uma denominação, na verdade fala por muitos cristãos, sejam evangélicos ou católicos) atacando a homossexualidade na TV como se fosse uma praga, uma aberração, uma má influência pra sociedade. Como o mundo dá voltas e permanece, em essência, o mesmo…

Se formos utilizar a história, veremos que no futuro os grupos pro-homossexuais deterão o poder. Espero que ao menos eles tenham a sabedoria e o bom-senso de pôr um fim a esse ciclo de perseguições.

Referência:
História do Coliseu;
Persecution of Christians in the Roman Empire

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